quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Doce Primavera

Doce primavera que cobre os montes e vales com o seu manto florido. Delicadamente, solta gotas de orvalho sobre pétalas de flores, e pequenos raios de luz que pintam cores alegres e quentes com árvores debruçadas sobre as encostas. Verdes, cheias de vida, respiram com frescura todo este ar que varre os céus azuis claros, adocicado com todo este aroma novo de tons subtis e nuvens esvoaçantes...
A vida move-se ao ritmo do sol e da lua, ao ritmo da terra que baloiça sobre as estrelas. Esta dança encantada que acaricia os sentidos, em constante mudança, em constante improvisação.
Deleito-me como humilde criatura, perante a beleza dos seres, da chuva, das folhas e do vento que varrem este berço mágico.

O lugar onde posso confiar, me entregar. Tranquilo e sorridente. Aqui sim sinto-me em casa. Perco-me vezes em conta, atrás das núvens e através do tempo que corre lentamente...

Encruzilhadas Da Mente

Talvez seja da idade, mas já não tenho paciência para certas coisas.
Talvez seja da desilusão, mas já não te conheço.
Vejo-te a correr atrás de um vulto. A boca a mexer, mas não dizes nada.
Para mim já não és.
Um ruído de fundo.
Uma pedra no sapato.
Habituamo-nos a conviver com ela.
Talvez seja coisa boa.
O mundo não pára!
Todos nós seguimos caminhos diferentes, contudo caminhando para a mesma insignificância.
Daí advém a humildade de ser.
Fico triste por perceber que já não és.
Fico apático perante o estranho ser que se apresenta à minha frente.
Os mesmos pedaços de carne, o mesmo sangue, as mesmas memórias... Irónico esboço de ti.
Também mudei, também não sou o mesmo.
Do que me queixo então. O que me incomoda?
Talvez que ainda deâmbules por aí e não possa fazer o luto.
Um luto que fiz disfarçado.
Um luto que corroeu e não apaziguou.
Um luto que deixei para depois e que enganou.
Talvez seja de mim... Não, é de mim!
Há atitudes que me colocam esta interrogação.
Quem és tu?
Só encontro uma resposta.
Eras...
Em retrospectiva sorrio, porque a vida é um jogo onde as regras mudam sem cessar.
Onde os dogmas apodrecem quando menos esperamos.
Mas há coisas que nunca mudam, e para lá do horizonte, fica a incerteza, o desconhecido, uma esperança.
No fundo, isto é viver nas encruzilhadas da mente.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Mergulho

Mergulho na imensidão
Fria e intocavél
Retenho o folego
Não deixo fugirem as memórias
Inspiro esperança
Seguindo o fluxo do amor
Ninfas perdidas
Esquecidas no fundo
Cantam melodias
Doces notas
Sou conduzido até à superfície
Morto por um pouco de ar
Uma visão surge
O inesperado
O envolvente
Dois mundos unidos
Por um silêncio
Ecos escondidos me chamam
Ilusão?
Guardo esta concha
De punho fechado
É tempo de descontrair
Devolver o que não me pertence
Confiar
Soltar
Levado pela corrente
Pela maré
Pelo rebentar na areia
Ruídos, estrondos
Filamentos flutuantes
Aqui estou eu
Desafiado novamente
A caminhar de pé.

Poço De Água Reluzente

Demónios que sussurram. Não no escuro da noite. Mas à claridade do dia.
Impiedosos, incansáveis, murmuram incertezas, descontentamento, envenenam a serenidade.
Ilusões com vida própria, pacientes e ousadas.
Pára um pouco, fecha os olhos, respira... relaxa... Observa o poço lamacento que carregas.
Consegues ouvir os ecos? Os gritos de desespero?
Esses demónios não são teus. Observa, são histórias, fantasias, lembranças, coisas que não existem...
Eles só se cristalizam com a crença. Um pensamento em que acreditas, tem
um outro magnetismo e dimensão, mas não passa de um pensamento.
Acreditar é a energia vital destes demónios, deste lixo psíquico...
Mas relaxa, a sujidade acenta, o poço limpa-se com serenidade e dedicação.
E a água limpa reluz saciando a tua sede.

Raios da Tarde (em Sintra)













Os últimos raios da tarde espelham a folhagem como medalhas reluzentes e prateadas.
Esboços do dia...
As árvores tacteiam o vento. O caminho de terra com adornos de pedra e pequenos malmequeres brancos e violeta, apresentam com boas vindas uma árvore esguia.
Os latidos do cão ecoam ao longe. Os telhados aguçados. A água a serpentear as pedras.

Robô

Sou um robô.
Sem dar conta, iludido pelo meu "livre arbítrio" e outras tantas teorias reconfortantes.
Até que ponto faço o que quero? Até que ponto faço o que preciso? Até que ponto faço o que devo?
Até que ponto, o que devo, quero ou preciso de fazer, tem mais força que o resto? Aquilo que simplesmente é e surge.
Mesmo aquilo que forçamos a ser, numa visão determinista, me embebedo de imparcialidade.
Avanço mecanizado, limitado em tantos níveis.
Tomara a muitos terem a loucura de tocar tais abismos e se verem perante o espelho da alma.
Um lago negro e turvo que rodopia e colapsa no epicentro. Quando tocado em serenidade, se esbate
como uma linha ténue e brilhante... Numa imensidão oceânica, totalmente branca e reluzente.
Nada metafísico... Apenas mental. E o mental contém o universo inteiro em si, assim como tantas outras dimensões internas que estão fechadas e apenas abrem ao cantigo do coração.
Este (Om) interno que ressoa e vibra subtilmente.
Será possível me dissecar de todos os antropocentrismos e percepções?
Talvez perante a morte, onde o corpo se dissocia e o nada surge de forma natural, bela e poética, tal como o nada
murmurava antes de ter nascido.

Sonhos Poeirentos

Sonhos são feitos de poeira
Viciado em fantasia
Onde a morte rasteja atrás de mim
Com a sua doce foice
O meu coração pára
Tens uma pele branca como pérola
O teu olhar tão frio
Vejo-me ir atrás da escuridão
As trevas cantam esta melodia
Encantos delicados
O aroma a rosa branca
Ramos encurvados
E um olhar penetrante
Vejo o muro coberto de musgo
A chuva acolhe o solo
Sorri finalmente
Entrega a tua alma
A língua torce sons
Não percebo o teu dialecto
Nem o teu olhar penetrante
Continua a cavar
Mais fundo
Até bater na pedra
Até cheirar a podridão
O teu cabelo esfoaça
Tão negro e brilhante
Tão liso, tão bonito
Todas as palavras que ouvi
Todas as coisas que fiz
Se desvanecem agora
Perante a lua
As nuvens resmungam
Mergulho bem fundo
Uma mão fria se estende
E me agarra com força
Reparo numa esfera negra
Um anel, uma pedra polida
Deixa-me ir
Ouço este canto
Se o pudesses ouvir
Deixa-me ir
Não tenho mais forças
Para contrariar